Restinga é um termo
empregado para designar as planícies litorâneas
cobertas por deposição marinha, resultante
do recuo dos níveis de oceanos há cerca
de 5 mil anos, durante o Quaternário. Depois
do recuo, houve deposições fluvial e lacustre,
contendo, em parte, material proveniente das escarpas
do Complexo Cristalino, características no litoral
Sul e Sudeste brasileiro, ou do arenito da Formação
Barreiras. Essas planícies situam-se sob clima
tropical úmido, sem estação seca,
com precipitações médias anuais
ao redor de 1700-2000 mm. A maior quantidade de nutrientes
na planície costeira provém de precipitações
atmosféricas, estando principalmente fixada na
biomassa vegetal.
As planícies
litorâneas podem apresentar-se com extensões
bastante variadas, dependendo do recuo das escarpas
do Cristalino. Os níveis marinhos passados
oscilaram de forma a promover a sedimentação
em diversos patamares, que são testemunhos
desta deposição alternada. Pela
ação das marés, a deposição
de sedimentos marinhos se deu sob a forma de cordões
arenosos, havendo alguns terraços mais
antigos. Por trás desses depósitos
e entre os cordões é possível
ocorrerem depressões que formam várzeas
ou pântanos de água doce. |

© BrasilTurismo.com |
|
Na linha de praia das planícies litorâneas
se estabelece uma vegetação adaptada às
condições salinas e arenosas sob influências
de marés, denominada halófila-psamófila,
com espécies herbáceas reptantes, com
sistemas radiculares amplos. Após esta faixa,
sobre cordões mais estáveis, encontra-se
uma vegetação arbustiva e arbórea
densa, denominada jundu, com muitas bromélias
terrícolas. É característica a
sua forma de cunha, devido à ação
abrasiva de partículas de areia sobre as gemas
voltadas para a praia. Apresenta uma camada orgânica
pouco desenvolvida, com as bromélias de solo
desempenhando um papel estabilizador do substrato e
de retenção de água e de nutrientes
no sistema. No litoral do Rio de Janeiro e do Espírito
Santo desenvolvem-se moitas compostas por espécies
arbustivas e arbóreas, intercaladas por solo
descoberto, cuja denominação é
dada pela presença de taxas dominantes, como
Restinga de Clusia, de Myrtaceae e de Ericaceae.
Sobre os cordões
arenosos, dependendo de sua idade, estabelece-se
uma floresta que é menos exuberante que
a Mata Atlântica, com flora similar, penetração
de elementos do Cerrado, poucas espécies
características e grande quantidade de
epífitas.
Há florestas que se assemelham às
dos topos de morros nas serras costeiras, em geral
sobre cordões mais recentes, com muitas
Myrtaceae e bromélias terrícolas. |

© BrasilTurismo.com |
|
Nos terraços marinhos é comum a ocorrência
de áreas temporariamente inundadas, que suportam
florestas de várzea. Entre os cordões
há depressão que pode ser permanentemente
úmida, sustentando florestas paludosas, com poucas
espécies arbóreas adaptadas e muitas bromélias
sobre o solo encharcado. Nas bacias de solo orgânico
tanto se desenvolve a floresta paludosa quanto os campos
monoespecíficos de taboa ou de lírio do
brejo. Este conjunto de formações sobre
a planície litorânea estabelece um mosaico
de granulação variável, ampliando
sua diversidade biológica. A fauna de mamíferos
e de aves que ocorre nas florestas sobre a restinga
é similar à da Mata Atlântica, indicando
interações associadas às alternativas
temporais e espaciais de recursos alimentícios,
de abrigo e de nidificação. Estas florestas
pluviais associadas ao domínio atlântico
têm poucos remanescentes preservados em Unidades
de Conservação, principalmente pela ocupação
urbana das planícies litorâneas.
Manguezal
Este é composto por um pequeno número
de espécies de árvores e desenvolve-se
principalmente nos estuários e na foz dos
rios, onde há água salobra e local
semi-abrigado da ação das ondas,
mas aberto para receber a água do mar.
Trata-se de ambiente com bom abastecimento de
nutrientes, onde, sob os solos lodosos, há
uma textura de raízes e material vegetal
parcialmente decomposto, chamado turfa. Nos estuários,
os fundos lodosos são atravessados por
canais de marés (gamboas), utilizados pela
fauna para os seus deslocamentos entre o mar,
os rios e o manguezal.
O Brasil tem uma das maiores extensões
de manguezais do mundo. Menosprezado no passado,
pois a presença do mangue estava intimamente
associada à febre amarela e à malária,
enfermidades já controladas, a palavra
mangue, infelizmente, adquiriu o sentido de desordem,
sujeira ou local suspeito. O manguezal foi durante
muito tempo considerado um ambiente inóspito
pela presença constante de borrachudos,
mosquitos pólvora e mutucas. As florestas
escuras, barrentas, sem atrativos estéticos
e infectadas por insetos molestantes fez com que,
até meados da década de 70, se pensasse
que o progresso do litoral marinho fosse equivalente
a praias limpas, aterros saneados, portos confinados
por concreto e experimentos de cultivo para aproveitar
os terrenos dos velhos manguezais. |
|
Embora seja grande a importância econômica
e social do manguezal, este enfoque foi em parte responsável
pela construção de portos, balneários
e rodovias costeiras em suas áreas, diminuindo
a extensão dos mangues.
Ao contrário de outras florestas, os manguezais
não são ricos em espécies, porém
destacam-se pela grande abundância das populações
que neles vivem. Por isso podem ser considerados um
dos mais produtivos ambientes naturais do Brasil.
Somente três árvores constituem as florestas
de mangue: o mangue vermelho ou bravo, o mangue branco
e o mangue seriba ou seriuba. Vivem na zona das marés,
apresentando uma série de adaptações:
raízes respiratórias (que abastecem com
oxigênio as outras raízes enterradas e
diminuem o impacto das ondas da maré), capacidade
de ultrafiltragem da água salobra e desenvolvimento
das plântulas na planta materna, para serem posteriormente
dispersas pela água do mar.
A flora do manguezal pode ser acrescida de poucas espécies,
como a samambaia do mangue, a gramínea Spartina,
a bromélia Tillandsia usneoides, o líquen
Usnea barbata (as duas últimas conhecidas como
barba de velho e muito semelhantes entre si) e o hibisco.
No Norte do País, as espessas florestas de mangue
apresentam árvores que podem atingir 20 metros
de altura. Na região Nordeste há um tipo
de manguezal conhecido como "mangue seco",
com árvores de pequeno porte em um substrato
de alta salinidade. Já no Sudoeste brasileiro,
apresenta aspecto de bosque de arbustos.
O chão escuro do mangue é coberto por
água na preamar. Ricas comunidades de algas crescem
sobre as raízes aéreas das árvores,
na faixa coberta pela maré, e, entre elas, encontram-se
algas vermelhas, verdes e azuis. Os troncos permanentemente
expostos e as copas das árvores são pobres
em plantas epífitas. Bactérias e fungos
decompõem as folhas do manguezal e a cadeia alimentar
é baseada no uso dos detritos resultantes desta
decomposição.
Quanto à fauna, destacam-se várias espécies
de caranguejos, formando enormes populações
nos fundos lodosos. As ostras, mexilhões, berbigões
e cracas se alimentam filtrando da água os pequenos
fragmentos de detritos vegetais, ricos em bactérias.
Há também espécies de moluscos
que perfuram a madeira dos troncos de árvores,
construindo ali os seus tubos calcários e se
alimentando de microorganismos que decompõem
a lignina dos troncos, auxiliando a renovação
natural do ecossistema através da queda de árvores
velhas, muito perfuradas.
Os camarões também entram nos mangues
durante a maré alta para se alimentar. Muitas
das espécies de peixes do litoral brasileiro
dependem das fontes alimentares do manguezal, pelo menos
na fase jovem. Entre eles estão bagres, robalos,
manjubas e tainhas. A riqueza de peixes atrai predadores,
como algumas espécies de tubarões, cações
e até golfinhos. O jacaré de papo amarelo
e o sapo Bufo marinus podem, ocasionalmente, ser encontrados.
Aves típicas são poucas, devido à
pequena diversidade florística; entretanto, algumas
espécies usam as árvores do mangue como
pontos de observação, de repouso e de
nidificação. Estas aves se alimentam de
peixes, crustáceos e moluscos, especialmente
na maré baixa, quando os fundos lodosos estão
expostos. Entre os mamíferos, o coati é
especialista em alimentar-se de caranguejos. A lontra,
hábil pescadora, é freqüente, assim
como o guaxinim.
Os manguezais, usados pelos homens dos sambaquis há
mais de 7 mil anos e, a partir de então, pelas
populações que os sucederam, fornecem
uma rica alimentação protéica para
a população litorânea brasileira.
A pesca artesanal de peixes, camarões, caranguejos
e moluscos é para os moradores do litoral a principal
fonte de subsistência.
Embora protegido por lei, o manguezal ainda sofre com
a destruição gratuita, poluição
doméstica e química das águas,
derramamentos de petróleo e aterros mal planejados. |