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Falta de registro deixa vulneráveis 90% do patrimônio histórico do país, denuncia entidade
Data: 12 de Janeiro de 2010
Autor: Agência Brasil (EBC)


São Paulo - A recuperação de edificações com valor histórico depende da existência de registros documentais e fotográficos dos diversos aspectos da estrutura e estética do imóvel, o chamado levantamento cadastral. Em caso de acidentes, são essas informações que vão guiar os trabalhos de restauração ou até a reconstrução do patrimônio.

Entretanto, segundo coordenador geral de projetos da Defesa Civil do Patrimônio Histórico (Defender), Telmo Padilha, 90% do patrimônio histórico do país não disdpõem desse levantamento. Caso essas edificações sejam destruídas incêndios ou enchentes, estarão completamente perdidas. A Defender é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) gaúcha que atua desde 2002 na defesa do patrimônio histórico e artístico.

A inundação que deixou o município paulista de São Luiz do Paraitinga submerso e danificou construções do século 19 deve servir de alerta para que sejam catalogados outros sítios históricos como forma de proteger o patrimônio, na avaliação de Padilha. “Existem países que passaram por guerras, que foram totalmente destruídos e reconstruíram”, ressaltou.

Sobre São Luiz do Paraitinga, o Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) informou que, como o processo de tombamento do conjunto arquitetônico da cidade estava em estado avançado, as construções foram registradas e catalogadas. Em pouco tempo o conjunto do município poderia integrar o grupos dos cerca de 100 sítios urbanos tombados pelo instituto.

Isso é diferente do que acontece na capital do estado, onde, de acordo com o presidente da Associação Preserva São Paulo, Jorge Eduardo Rubies, milhares de imóveis de valor histórico e arquitetônico não recebem qualquer tipo de proteção. “O patrimônio histórico aqui de São Paulo está ameaçado, é mal cuidado, pouco valorizado, a situação é realmente muito ruim”, afirmou em entrevista à Agência Brasil.

Segundo Rubies, a valorização das áreas onde estão localizados imóveis de importância histórica acaba fazendo com que essas propriedades sejam adquiridas por grandes empresas que depois derrubam as edificações e usam os terrenos para outros fins.“A especulação imobiliária é a grande responsável pela destruição do patrimônio histórico, porque eles não tem o menor interesse em preservar, querem destruir tudo mesmo”, disse.

Os tradicionais conjuntos habitacionais operários da Mooca, na zona leste, estão sendo demolidas, segundo Rubies, para a construção de megacondomínios. “São uma coisa que a gente considera uma excrescência no tecido urbano da cidade, porque esses megacondomínios arrasam quarteirões inteiros para construir essas torres fortificadas totalmente separadas da cidade, não têm um diálogo com a cidade”, destacou.

O setor imobiliário, acrescentou Rubies, usa o poder financeiro para influenciar a esfera política e realizar esse tipo de modificação na estrutura urbana. Ele relembrou a cassação de 16 vereadores determinada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) por receberem doações irregulares da Associação Imobiliária Brasileira (AIB).

Telmo Padilha lembra que existe o conceito equivocado de que substituir construções antigas por obras mais modernas é uma forma de desenvolvimento. “A velocidade da destruição do patrimônio é diretamente proporcional ao que se chama de progresso”.

O metrô paulistano, aponta Jorge Rubies, arrasou dezenas de imóveis de valor histórico durante a sua construção e continua derrubando na sua atual expansão. O que, segundo o presidente da Preserva São Paulo, não seria necessário. “Somos defensores incondicionais do metrô. Mas por exemplo, em Paris foi construído um metrô enorme e se preservou tudo de importante na cidade”.

Daniel Mello
Repórter da Agência Brasil


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